Por fidelidade aos quadrinhos, diretor de 300 esquece o cinema

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Art Spiegelman, vencedor do prêmio Pulitzer graças ao álbum em quadrinhos Maus, sempre recusou vender os direitos de sua obra-prima para o cinema. A justificativa dada pelo autor é de que os quadrinhos se bastam como veículo e que uma adaptação cinematográfica não acrescentaria nada. Os produtores de Hollywood estão fazendo justamente o contrário – quase não há quadrinho que não esteja sendo roteirizado para o cinema – mas Spiegelman pode estar mais certo do que nunca.

Embora atualmente haja um consenso de crítica – e principalmente público – de que filmes baseados em quadrinhos são uma coisa boa, nem sempre foi assim. Com exceção de Superman, de 1978, dirigido por Richard Donner, poucos filmes baseados em histórias ou personagens de quadrinhos escapavam da mediocridade. Isso quando não eram simplesmente constrangedores (como o raríssimo Quarteto Fantástico dirigido por Roger Corman, ou O Justiceiro, com Dolph Lundgren).

Tim Burton, em 1989, realizou um ótimo trabalho dando cores mais sombrias a Batman, um tanto inspirado na visão que o desenhista Frank Miller tinha do herói. Na mesma época, Miller, que já havia revolucionado um par de vezes os quadrinhos com títulos essenciais como Ronin e, claro, Batman – o cavaleiro das trevas, dava sua contribuição a Hollywood assinando o cínico – na medida certa – roteiro de “Robocop II”. Com a péssima adaptação feita de outro roteiro seu para a seqüência, Robocop III, Miller se desiludiu com o cinema e voltou de corpo e alma aos quadrinhos.

Convencido a voltar para o cinema por Robert Rodriguez, com quem co-dirigiu a adaptação de seu próprio álbum Sin city, Frank quis evitar que suas criações fossem novamente mutiladas. Sin City ganhou um visual idêntico aos quadrinhos.

Praticamente quadro por quadro foi para a telona. O filme foi saudado como a mais fiel adaptação dos quadrinhos para os cinemas. E, ao mesmo tempo, estabeleceu a receita padrão do que seria uma boa transcrição de uma graphic novel: mesmos enquadramentos, mesmas falas, mesmo visual. Estava pronta a fórmula perfeita para agradar os fãs.

Todos os méritos para Rodriguez – que faz seus filmes em sua fazenda no Texas – e Miller, mas os efeitos colaterais de tanta fidelidade já podem ser sentidos. O mais recente exemplo é o sucesso 300, não por acaso outra adaptação de uma obra de Frank Miller. No afã de reproduzir TUDO que está nos quadrinhos, os diretores estão esquecendo que o cinema é a arte de contar histórias com imagens.

Tanto Sin City quanto 300 padecem do mesmo mal: a incessante narrativa em primeira ou terceira pessoa. Em Sin City, cada gesto e pensamentos dos personagens eram narrados por eles mesmos, mesmo que não houvesse necessidade nenhuma. Como na seqüência em que o policial Hartigan (Bruce Willis) descreve tudo o que faz, do início ao fim. Ele põe a mão no peito sentindo dores, com sua própria voz dizendo que está passando mal, como se o espectador não estivesse vendo aquilo se desenrolar à sua frente. E é assim o filme inteiro. O que sobra de sofisticação visual falta de ritmo.

Em 300 acontece o mesmo. Com a prerrogativa inabalável de manter o filme fiel aos quadrinhos, quase um dogma, o diretor Zack Snyder encarrega o personagem Dilios (David Wenham) de contar o filme inteiro. É tanta legenda que parece a barra rolante de notícias da CNN. De que adianta o diretor gastar milhões de dólares em seqüências deslumbrantes de lutas e não deixar o público apreciar sem um narrador ditando ação por ação?

Spiegelman pode até ser radical demais em não autorizar a adaptação de suas obras para o cinema. Afinal, é no mínimo curioso ver na tela grande a visão de quadrinistas de talento como Frank Miller. Mas seria bom se os diretores não abdicassem de fazer cinema. Até porque uma hora ou outra o visual feito em computadores para deixar os filmes com cara de quadrinhos vai deixar de ser novidade. E só vai sobrar o velho e bom jeito de contar histórias com a câmera.

Notícia retirada do site G1

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