Confira crítica do filme 300 (Cinema com Rapadura)

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Confira abaixo a crítica do filme 300 feita por Thiago Sampaio do site Cinema com Rapadura

Uma das produções mais aguardadas do ano finalmente chega para satisfazer a ânsia dos fãs de HQs e aventuras épicas: 300, baseado nos quadrinhos (para os mais exigentes, leia-se graphic novel) Os 300 de Esparta, do mestre Frank Miller e Lynn Varley. Adotando o mesmo estilo de Sin City (outra adaptação de um quadrinho de Miller), sendo rodado inteiramente em croma-key (a famosa tela azul) com o fundo sendo substituído por computação gráfica, e a idéia de que o visual dos quadrinhos e seu roteiro sejam fielmente transportados para o cinema com a técnica. E o resultado é definitivamente extraordinário! Para os fãs da graphic novel, um verdadeiro delírio conferir a retratação fidelíssima quase quadro-a-quadro; para os fãs de filme de ação, uma emoção sem igual conferir uma História real repleta de elementos fantasiosos.

Na história, em 480 a.C. uma fenomenal força de ataque vinda da Pérsia entrou na Grécia pelo norte e chegou até a Fócida, no extremo oeste da Grécia Central. Leônidas (Gerard Butler), um dos dois reis espartanos, posicionou seu exército, com aproximadamente 4.000 soldados, nas Termópilas, um estreito desfiladeiro próximo ao mar. Dessa forma, conseguiu bloquear a passagem dos invasores enquanto as outras cidades gregas eram avisadas por mensageiros. A estratégia teria sido bem-sucedida não fosse um traidor que revelou aos persas um atalho que possibilitou um ataque devastador pelos flancos. Como o código de honra dos homens de Esparta repudia a derrota ou a rendição, Leônidas decidiu resistir até o final, juntamente com sua guarda de elite, os 300. O resultado foi uma das mais heróicas batalhas da história.

Antes de tudo, é bom deixar claro que 300 é um filme voltado para o povão que anseia muita ação, sangue, com fins de divertimento gratuito. E ponha diversão nisso! Diferente do mediano Os 300 de Esparta de 1962 (que por sinal, inspirou Frank Miller a escrever a graphic novel), que apresentava uma visão realista dos eventos, esta nova produção se aproveita do evento histórico da guerra entre espartanos e persas para abrir um leque de situações fantásticas e completamente irreais (como a existência de monstros, seres místicos, etc). E eis onde mora a singularidade do longa: mistura as vertentes de uma maneira bastante satisfatória através do eficiente roteiro de Kurt Johnstad (do ótimo seriado Band of Brothers), do estreante Michael Gordon, e do próprio diretor Zack Snyder. Mesmo sendo uma versão sem cunhos de fidelidade com a História (os próprios estilos de luta são diferentes, assim como o figurino, em que os espartanos ao invés de usarem armaduras, ficam de peitos nus e sungas), o roteiro aborda pontos muito interessantes desses povos, como o fato de todas as crianças espartanas do sexo masculino serem treinadas para serem guerreiras, as que nascessem deficientes seriam mortas no ato, etc. Além de muitas citações que exigiram bons estudos, como o monólogo no final dito pelo narrador quando é mostrado Leônidas e seus homens mortos, que é encontrado na tumba do verdadeiro Rei Leônidas; ou a frase “Volte com seu escudo, ou sobre ele“, comumente dita pelas mulheres espartanas aos seus maridos e filhos.

Quem nunca sequer ouviu falar nos quadrinhos de Miller, apreciará o filme sem problema algum, pois sua emoção é constante, mas é inegável que quem já apreciou as revistas irá delirar em demasia, já que o filme capta com perfeição a atmosfera das páginas, com cenas reproduzidas com o máximo de fidelidade (impossível em alguma sessão não haver algum nerd vibrando e repetindo as falas dos personagens). A cena dos persas sendo derrubados penhasco a baixo, o contato do jovem Leônidas com o lobo, tudo é simplesmente idêntico aos desenhos de Miller. Lógico, mudanças na trama tiveram que ser feitas, detalhes omitidos, novos personagens criados, para que realmente pudesse ganhar cara de filme, e não uma transposição literal como fora “Sin City”. Para manter o clima de uma revista, a técnica dos cenários virtuais (cada vez mais eficiente, e com menos cara de desenho animado, como em “Capitão Sky e o Mundo de Amanhã”) está muito bem aplicada, de forma que o forte contraste de cores é um espetáculo visual de encher os olhos. Para isso, a direção frenética de Zack Snyder, usando muitos cortes (principalmente mostrando lanças sendo encravadas) e takes em slow motion contribui demais para manter o clima sempre excitante, semelhante a de um videoclipe (característica que ele já havia demonstrado em seu filme anterior, “Madrugada dos Mortos”).

E Snyder demonstra exímia habilidade na condução das cenas de ação. É impossível não vibrar com as batalhas grandiosas (por sinal, haja figurantes) e torcer arduamente pelos espartanos ao vê-los exibindo uma técnica de guerra sem igual. São muitos os momentos de destaque de Snyder, dentre eles, uma seqüência de cerca de dois minutos ininterruptos, em plano único e sem corte, em que Leônidas corre e sai matando todos que surgem em seu caminho, alternando o escudo, a lança e a espada como armas. Algo realmente – desculpem a expressão clichê – de tirar o fôlego, que creio eu ter visto uma tomada tão emocionante pela última vez em “Filhos da Esperança” (lá realmente bateram o recorde com uma cena de ação de 15 minutos em plano único). Tudo embalado com muita violência explícita e uma trilha eficiente de Tyler Bates, as batalhas nunca chegam a soar cansativas, pois a cada novo confronto, novas táticas são adotadas pelos corajosos espartanos, mantendo a narrativa dinâmica – o ataque aos ‘imortais’ através de um morro de cadáveres é algo impressionante, e o ataque final diante do imperador Xerxes, é algo, no mínimo, fabuloso.

É fato que a subtrama envolvendo a Rainha Gorgo e o diplomata de honestidade duvidosa, Theron (Dominic West), é bem menos interessante do que a de Leônidas e seus guerreiros, fazendo o ritmo cair. Mas, ela é totalmente necessária para o desenrolar da politicagem que origina o fim do filme. Também muito se comentou sobre uma polêmica existente em possíveis elos da história com o atual contexto político, induzindo que o presidente dos EUA, George W. Bush, pudesse está representado na figura de Xerxes ou Leônidas. Isso por conta da guerra do Iraque, que desagradou o povo e fez com que seus índices de popularidade despencassem -, ou a favor dele – para aqueles que o enxergam como o “perseguidor” da liberdade. Agora, sinceramente, tenho quase certeza que essas conotações nunca passaram pela cabeça dos realizadores, pois desde o início o filme mostra suas raízes comerciais, com fins únicos de diversão. Convenhamos, para qualquer novo filme, sobre qualquer época, que aborde expansão imperialista, sempre surgirá gente encontrando mensagens subliminares onde não existe.

Quanto as interpretações, Gerard Butler confere um ar magistral a Leônidas, acertando em cheio desde a entonação da voz, as expressões faciais (reparem em sua cara de raiva no clímax). Até no humor irônico de Leônidas, Butler acerta em cheio: quando ele explica a Xerxes a razão de não querer se ajoelhar a seus pés, é hilário. Com sua performance transmitindo um ar de superioridade e confiança, fica mais do que aceitável o fato de que o pouco número de espartanos nunca perde a coragem de lutar, por mais que a derrota seja quase certa. Após “300”, sem dúvidas Butler abandonará os papéis de coadjuvantes em produções medianas para se tornar um nome de peso em Hollywood. A bela Lena Headey, não tem grandes chances de exprimir uma carga dramática, estando em cena apenas para levar – com méritos – a força de uma presença feminina. Já nosso brasileiro Rodrigo Santoro, por sua vez, até que confere através de precisas expressões faciais o ar de mistério que Xerxes exige, mas são poucos os momentos em que ele dá as caras. Xerxes realmente chama a atenção por ser uma espécie de espectro, um ser que não parece humano, mas a atuação de Santoro foi claramente bloqueada pelos efeitos sob o personagem: seu tamanho foi aumentado para cerca de três metros de altura, e a voz engrossada em demasia digitalmente. Isso sem falar na sua caracterização um tanto homossexual. Alguns historiadores diziam que Xerxes era de fato afeminado, mas no filme, isso foi levado a sério demais. “Não é só do chicote que eles temem!“. Humpf…

É exagero afirmar que “300” traz inovações ao mundo cinematográfico. Mas, raríssimas são as chances em que vemos um filme tão sério e despretensioso ao mesmo tempo, que mexa com nossos sentimentos através das lições de coragem (a astúcia dos espartanos já virou para mim um sinônimo para a palavra coragem), e divirta com cenas de ação grandiosamente espetaculares. Isso sem falar na estética impecável. Esses fatores fazem com que “300” certamente figure na lista dos melhores filmes de 2007, mesmo que ainda falte muito para o ano acabar. Após esse filme, podemos depositar total confiança no diretor Zack Snyder na adaptação dos quadrinhos de Alan Moore, “Watchmen” (considerado por muitos, impossível de ser adaptado para os cinemas), em que está trabalhando. O cara realmente entende de quadrinhos nas telas.

Cotação: (9/10)

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