O rótulo, a luz e as trevas de Grandes Astros DC

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O contexto sempre interfere na forma de interpretação de um texto. Se alguém diz que vai contar uma piada, por exemplo, isso cria automaticamente no interlocutor a expectativa de ouvir uma narrativa curta, de humor e com desfecho inesperado. Esse raciocínio vale para duas revistas lançadas nesta semana: Grandes Astros: Superman e Grandes Astros: Batman & Robin (Panini, R$ 3,90 cada uma).

Os dois títulos ganharam fama antes mesmo de serem publicados no Brasil, seja a fama verdadeira ou não. A trama do homem de aço foi rotulada como uma história que prima pela qualidade do texto, escrito por Grant Morrison. Ajudou a vitória no ano passado do prestigiado Prêmio Eisner (espécie de Oscar dos quadrinhos norte-americanos) na categoria melhor nova série.

Na obra, Super-Homem descobre que vai morrer. Suas células se sobrecarregaram de energia solar. A proximidade da morte volta a história para a humanidade dele. O título faz uma leitura do herói de Krypton dissociada da cronologia habitual das outras revistas mensais (nas quais Clark Kent, por exemplo, é casado com Lois Lane, o que não ocorre em Grandes Astros).

O oposto ocorreu com Grandes Astros: Batman & Robin. A série foi associada como sendo um dos piores trabalhos de Frank Miller e Jim Lee, respectivamente escritor e desenhista da revista. O discurso foi "comprado" também por quem não leu. O rótulo deve influenciar a recepção da obra, que (re)conta a origem de Dick Grayson, o primeiro Robin.

O contexto é importante e interfere na leitura de uma obra. Mas é injusta e acrítica a rotulação de algo que nem sequer tinha sido lido. Resta somente a reprodução de um discurso ouvido de alguém. Analisando a história em si, sem a influência de rótulos de outrem, não é possível dizer ainda que uma pende à luz e outra, às trevas (a exemplo dos personagens-título).

Mas é possível detectar uma tendência. Enquanto Frank Miller usa todo o número de estréia para narrar a origem de Robin, Grant Morrison reconta a origem do Super-Homem em uma página com quatro quadrinhos. Isso permite a Morrison avançar numa nova trama. Já Miller lança o olhar sobre algo fartamente conhecido pelo leitor.

Fonte: Blog dos Quadrinhos