o fim de Civil War, diz criador da histria em quadrinhos

0
1.319 views

Civil War, um arco de histrias em quadrinhos da Marvel Comics

SO PAULO – A mar da histria mudou. Para o lado vencedor da guerra civil que assola os Estados Unidos desde maio de 2006 a mensagem clara: s heri aquele que obedece ao governo americano. Pelo menos assim que define Mark Millar, autor de Civil War, um arco de histrias em quadrinhos publicado pela Marvel Comics cuja ltima edio foi publicada na semana passada. Para o roteirista no se deve confiar em sujeitos que se acham no direito de praticar justia sem respaldo legal.

“Voc realmente gostaria que esses sujeitos fossem annimos? Vigilantes no tm superpoderes e so ilegais. Super-heris seriam um pesadelo”, disse Millar em entrevista ao site especializado Newsarama. Uma ameaa pblica devido ao tamanho de seus poderes, nas sete edies de Civil War, a populao herica da Marvel se divide a partir de uma lei do governo americano: todo super-ser mascarado deve ser registrado como um funcionrio do Estado. Do contrrio, caado como um criminoso fora-da-lei.

Arregimentados por dois cones dos quadrinhos, os heris chegam finalmente aos termos do conflito no ltimo nmero: Capito Amrica, lder do plo anti-registro – a Underground Resistence – entrega-se Tony Stark, o Homem de Ferro, frente da Registration Initiative. Mas claro, isso s acontece depois do heri patriota dar no ferroso uma das mais colossais surras da histria dos quadrinhos.

Tudo superlativo

No h adjetivos suficientes para descrever a mini-srie. Tudo superlativo a comear pelo prprio nome, Civil War, referncia Guerra de Secesso Americana. Conflito que durou de 1861 at 1865 durante o governo de Abraham Lincoln, a guerra civil teve o maior nmero de mortos da histria americana, algo em torno de 970 mil pessoas. Nos gibis, da mesma forma, radicaliza-se o confronto. Invs da questo entre unionistas do Norte e confederados do Sul agora o ponto a divergncia sobre um dos pilares da identidade americana: essncia de sua tradio, fundamento do pas, a quase religiosa definio de heri. Ou no caso, um “super”-heri. Quem tem razo? Apesar de buscar tratar os dois lados com imparcialidade, o homem por trs de todo enredo entrega que sua opinio sobre o assunto sempre foi muito clara: “Eu seria o primeiro numa marcha em Washington DC pedindo para que os Sentinelas (um exrcito de super-robs a servio do governo) esmagassem esses malditos pois eu no gosto de ver edifcios sendo derrubados, e como sabemos, isso ocorreu em pelo menos uma das edies.” Como ser humano, disse Millar, “eu apoiaria Tony (o Homem de Ferro) o tempo todo.”

De forma geral e por definio, o heri de quadrinhos um sujeito que age fora da lei porm em benefcio dela. Batman, Homem-Aranha, Superman, Mulher-Maravilha, X-Men, todos, de uma maneira ou outra esto fora do aparelho legal e isso parte daquilo que fascina os americanos h tantas dcadas. No entanto, sinal dos tempos, Civil War mostrou que nos Estados Unidos ps-11 de setembro o tipo de conduta “extra-legal” inaceitvel.

Alegoria poltica

“Bom, fico hesitante de apontar qualquer alegoria poltica (em Civil War). Ela est l para quem quiser ver, mas toda histria que escrevo tende a se modelar mais pelas manchetes de jornais do que por quaisquer gibis que eu tenha lido”, disfarou Mark Millar, na entrevista ao site. Claro, se um gigante adormecido d um simples suspiro tudo ao seu redor estremece em pavor. Que dir ento de uma agresso to intensa integridade americana como o terrorismo? H pelo menos cinco anos, raras vezes os jornais americanos tiveram uma manchete que no falasse sobre “nao”, “guerra ao terror”, ou qualquer tema ligado “segurana”. Difcil negar, os quadrinhos, um dos canais mais banais do senso comum, manifesta as conseqncias culturais de uma realidade em transformao.

Na histrica segunda edio de Civil War, Peter Parker, o Homem-Aranha, revela ao pblico sua identidade secreta numa coletiva de imprensa a favor do registro de super-heris. Evento divisor de guas para os quadrinhos, a fico tem uma estranha familiaridade com as determinaes do “Patriot Act”, sigla de “Providing Appropriate Tools Required to Intercept and Obstruct Terrorism Act” (algo como “Lei de Provimento Aquisio de Ferramentas Adequadas para Interceptar e Obstruir o Terrorismo”).

Pacote de medidas aprovadas pelo Congresso americano em 2001 e ratificada em 2006, um dos itens do Patriot Act define como “terrorismo domstico” atividades que “envolvam atos perigosos vida humana que sejam violaes das leis criminais dos Estados Unidos ou em qualquer estado” ou que “afetem a conduta governamental atravs de destruio em massa, assassinato ou seqestro.” Nesses termos nada seria mais politicamente correto do que a atitude do Homem de Ferro em manter uma legio de seres super-poderosos sob os auspcios do Estado antes que suas batalhas cheguem a propores devastadoras.

bvio, o que est em questo no a maneira como um gibi se inspira na realidade para criar suas histrias. Mas sim, por outro lado, aquilo que orienta a formulao de um ideal herico. “Ns (os escritores) sentimos que o Capito Amrica ia vencer (a Guerra Civil) pois ele tinha 70 anos de tradio herica nas costas, mas no decorrer da do enredo voc percebe que ele est lutando contra a mar da histria.” Querendo atualizar o universo da Marvel, Mark Millar atesta: (O Capito Amrica) aquele caubi que ainda sai por a usando uma mscara quando todos seus amigos viraram xerifes.”

Guerra era legtima

Talvez a opinio do autor no faa justia quilo que o Capito Amrica foi desde sua origem. Nos “bons tempos” da guerra contra o nazismo o inimigo tinha um rosto e endereo muito claros. A guerra era legtima. O projeto totalitrio nazista supunha a dominao mundial em nome da hegemonia da raa ariana. Coisa de vilo profissional.

“No aceitaremos um mundo de Hitler. (…) S aceitaremos um mundo consagrado liberdade de palavra e expresso (…) liberdade das privaes – liberdade do medo.” Estas palavras no vieram de qualquer heri dos quadrinhos, mas do ento presidente americano Franklin D. Rosevelt em 27 de fevereiro de 1939, dois anos antes dos americanos entrarem na 2. Guerra Mundial. Mas enquanto a poltica falava o primeiro golpe em Hitler foi dado pelo Capito Amrica em outubro de 1941, ms do lanamento da edio nmero 1 da revista do heri, nada menos que dois meses antes do ataque Pearl Harbor.

Novos tempos, posies tomadas, hora de se perguntar sobre a sinceridade dos discursos. Segundo Millar, “nada que nobre pode ser interpretado como imprudente, perigoso ou fatal.” Para ele, os heris tem uma tarefa muito clara. Ser um super-heri trata-se de tentar se superar, “e estes sujeitos querem apenas fazer do mundo um lugar melhor”.

Rumos da histria

Seja como for, o editor-chefe da Marvel, Joe Quesada, disse que os efeitos de Civil War ainda sero sentidos nos quadrinhos pelos prximos dez anos. Dentre eles, alguns pontos j ficaram claros. Os heris que foram contra a iniciativa pr-registro foram mandados a uma tal “Zona Negativa”. Instncia dimensional fora da Terra, seus prisioneiros ficaram totalmente isolados do universo que conheceram.

Sua nica alternativa foi colaborar com seus algozes ou perecer com o passar dos anos. Qualquer parentesco com Guantnamo deve ser mera coincidncia, como diria Millar. Do alto de um porta-avies areo, o Homem de Ferro e seus aliados mantm um olhar vigilante sobre cada detalhe da vida humana, sempre pronto a interferir quando necessrio.

A verdade que os rumos da histria mudaram. O mundo que se deslumbrava diante das cores e aes de heris mascarados parece ter se tornado menor e menos seguro. Civil War no deixa de ser uma excelente histria em quadrinhos. Mas sua mensagem soa um tanto incmoda. Os heris j no so mais como eram antigamente. Sob a guarda de uma fora planetria super-poderosa. Quem garante que o mundo est em boas mos?

Fonte: Estado