Confira crtica do filme Transformers (site Cinema em Cena)

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Confira abaixo a crtica do filmeTransformers feitapelo editor do site Cinema em Cena Pablo Villaa:

Transformers

Transformers(2007)

Pablo Villaa (pablo@cinemaemcena.com.br)

Dirigido por Michael Bay. Com: Shia LaBeouf, Megan Fox, Josh Duhamel, Tyrese Gibson, Rachael Taylor, Anthony Anderson, John Turturro, Kevin Dunn, Bernie Mac, Julie White, Jon Voight e as vozes de Peter Cullen e Hugo Weaving.

Transformers uma experincia perfeita para quem sofre de dficit de ateno: abusando dos efeitos sonoros e da msica que se pretende grandiosa, o novo longa de Michael Bay emprega uma overdose de exploses no intuito de levar o espectador a acreditar que algo importante est acontecendo, quando, na realidade, seu propsito simplesmente o de manter o pblico acordado enquanto os produtores contam os dlares ganhos com a exposio de marcas como General Motors, Nokia, Burger King, Xbox e inmeras outras e no toa que o filme aparentemente se recusa a terminar antes de atingir inchadssimos 144 minutos, transformando-se no mais longo anncio publicitrio que j fui obrigado a testemunhar.

Escrito por Alex Kurtzman e Roberto Orci, o roteiro traz os personagens criados pela companhia de brinquedos Hasbro em uma disputa pelo planeta Terra: enquanto os nobres Autobots lutam para salvar nosso mundo, os cruis Decepticons pretendem escravizar os humanos e utilizar um poderoso cubo para criar novos robs (conhecido como All Spark, o tal cubo originou o planeta natal dos tais seres, Cybertron, que foi destrudo numa guerra entre os dois grupos). A chave para encontrar o objeto, porm, reside nos culos do tatarav do jovem Sam Witwicky (LaBeouf), que, sem saber, j dono de um Autobot designado para proteg-lo. Enquanto tentam recuperar o cubo, os heris da histria (alguns humanos genricos) devem tentar impedir que os Estados Unidos entrem em uma guerra contra a China, identificada erroneamente como a responsvel pelos incidentes provocados pelos Decepticons numa trama claramente inspirada na segunda temporada da srie 24.

Sempre demonstrando seu talento inigualvel para explodir coisas, o cineasta Michael Bay traz todo seu estilo estou tendo um ataque epiltico para o projeto, jamais criando um plano que dure mais do que 5 segundos ou um quadro que permanea fixo o que impossibilita o pblico de compreender exatamente o que est ocorrendo nas seqncias de ao, quando mal conseguimos enxergar os personagens ou o ambiente no qual tudo se passa (o mximo que captamos que X est lutando com Y, mas mesmo isto exige um esforo considervel). Da mesma forma, esto l todos os elementos tpicos do arsenal de truques do diretor: o travelling circular; as cmeras lentas sem o menor propsito narrativo; a fotografia que carrega no amarelo; a insistncia nos ngulos baixos que tentam engrandecer os heris; e assim por diante.

Mas no s: Bay consistente at mesmo naquilo que jamais aparece em seus trabalhos, como podemos constatar pela total falta de um desenvolvimento adequado dos personagens. a velha rotina: logo no incio da projeo, um soldado diz que est louco para rever a me, enquanto outro diz que s quer conhecer a filha recm-nascida – para o diretor, o que basta para que o espectador saiba quem so aquelas pessoas, mesmo que estas criaturas sejam to implausveis quanto a analista bela e sempre maquiada que logo solta uma opinio sobre DNA baseado em computador. Igualmente absurda a jovem beldade que, expert em mecnica e com ficha na polcia, vivida pela fraca Megan Fox que, consciente da prpria beleza, faz o tipo ninfeta sedutora ao longo de toda a histria, aparecendo em absolutamente todas as suas cenas com a boca semi-aberta um estranho clich de interpretao empregado por toda atriz bonita e sem talento que ganha papel de destaque em uma superproduo. Infelizmente, Transformers conta ainda com o chatssimo Anthony Anderson, que mais uma vez demonstra ser incapaz de tentar fazer graa sem gritar o tempo inteiro, como se o volume substitusse o timing cmico. E se Jon Voight parece perdido durante todo o filme, o jovem Shia LaBeouf diminui um pouco nosso sofrimento ao exibir imenso carisma e uma naturalidade surpreendente mesmo que isto no seja o bastante para tornar seu personagem mais real.

Investindo num tom desajeitado de comdia, Transformers freqentemente gasta um tempo precioso em gags que funcionam mal ou que fracassam totalmente, como a longa cena em que os Autobots se escondem no jardim de Sam ou a tentativa adolescente de fazer uma crtica a George W. Bush. Em contrapartida, ainda que a cena envolvendo um atendente terceirizado de uma companhia telefnica seja moderadamente divertida (a legendagem brasileira chega a incluir o gerundismo tpico destes profissionais), no h como negar que ela soa fora do lugar na narrativa, servindo apenas para diluir inadequadamente a urgncia do confronto que est acontecendo naquele momento. Da mesma maneira, se a participao de Bernie Mac como um vendedor de carros provoca algumas risadas, a menininha que confunde um transformer com a fada dos dentes merece apenas o ttulo de criana mais burra do mundo, j que, como esforo cmico, um fracasso completo (e lamentavelmente o mesmo se aplica a John Turturro, cuja composio exagerada chega a ser constrangedora).

Produzido com o intuito de alcanar tambm um pblico mais jovem que possa aumentar a arrecadao nas bilheterias, Transformers evita mostrar mortes de forma bvia, o que diminui a fora de uma trama que gira justamente em torno de um confronto brutal entre vrios seres poderosos. Isto, claro, no impede que Michael Bay demonstre o mesmo senso de humor doentio j visto em Bad Boys 2 s que, em vez de usar cadveres como alvio cmico, desta vez ele tenta arrancar o riso com a imagem de um humano frgil sendo arremessado violentamente para a morte certa por um peteleco do vilo Megatron. Alis, no restante do tempo o filme procura fingir que ningum est sendo ferido: sim, podemos at ver um carro com passageiros sendo atirado longe por um rob, mas em nenhum momento a narrativa se preocupa em reconhecer as baixas (provavelmente, na ordem de centenas ou mesmo milhares) entre os civis. Em vez disso, o diretor prefere fazer uma referncia egocntrica a Armageddon, que dirigiu em 1998.

Seja como for, impossvel deixar de reconhecer a eficincia de Transformers quanto aos efeitos visuais: concebidos com uma ateno imensa para os detalhes (observem como o metal azulado na cabea de Optimus Prime aparece sujo e arranhado), os robs vistos ao longo da projeo so espetaculares, exibindo movimentos incrivelmente naturais algo fcil de constatar na cena em que um dos Autobots, logo ao chegar Terra, vira-se para ver se est sendo observado antes de se transformar. Lamentavelmente, o apuro visual dos personagens no encontra reflexo em seus desenvolvimentos pelo roteiro: comportando-se e falando como humanos comuns (as piadinhas so pssimas), os heris robticos no exibem peso dramtico algum, tornando a (dupla) tentativa de usar Bumblebee (o carro do mocinho) como protagonista de cenas mais emocionantes um esforo que j nasce fracassado.

Mas no poderamos esperar nada diferente de um roteiro que abandona a maior parte de suas subtramas pela metade e por que investir tanto tempo no grupo de jovens hackers ou no secretrio de Defesa se estes sero simplesmente esquecidos no terceiro ato? E por que os tais culos so apresentados como pea importante da trama se, no final das contas, eles no desempenham papel algum no resgate do tal cubo? E como Optimus Prime pode saber tanto sobre o que aconteceu com o tatarav de Sam? E por que Optimus Prime diz que vai partir se, na cena seguinte, surgir dizendo que a Terra o novo lar dos transformers?

Chega a ser incrvel que, longo desse jeito, o filme no encontre tempo sequer para amarrar suas pontas soltas. O mais provvel, porm, que Michael Bay tenha julgado que no seramos capazes de notar todos os absurdos, j que estaramos encarando a tela com olhos embaados, totalmente anestesiados pelo ataque brutal aos nossos sentidos.