Confira crtica do filme Quarteto Fantstico e o Surfista Prateado (site Cinema em Cena)

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Confira abaixo a crtica do filmeQuarteto Fantstico e o Surfista Prateado feitapelo editor do site Cinema em Cena Pablo Villaa:

Quarteto Fantstico e o Surfista Prateado

Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer (2007)

Pablo Villaa (pablo@cinemaemcena.com.br)

Dirigido por Tim Story. Com: Ioan Gruffud, Jessica Alba, Chris Evans, Michael Chiklis, Julian McMahon, Kerry Washington, Andre Braugher, Doug Jones, Beau Garrett, Brian Posehn, Kenneth Welsh e a voz de Laurence Fishburne.

s vezes, confesso que sinto um terrvel cansao ao me preparar para escrever sobre filmes como este. Qual o objetivo de uma anlise crtica sobre Quarteto Fantstico e o Surfista Prateado? Com dezenas de milhes de dlares investidos apenas em sua demolidora campanha publicitria, esta continuao absolutamente imune a criticas (positivas ou negativas)- e, com 13 anos de profisso, eu sei que boa parte do pblico que ler este texto j ter entrado no cinema com a opinio praticamente formada pelo hype: o filme o mximo! Assim, quando encontrarem, aqui, uma opinio divergente, ficaro possessos, me acusaro de esnobismo e diro que “no sou imparcial” (nunca fingi ser!); que “sou arrogante” (culpado!); ou que “j no sou mais o mesmo de antes” (duh!). J passei por isso dezenas de vezes; basta revisitar os emails, posts em fruns e comentrios relacionados a crticas de obras como Impacto Profundo, Gladiador, Quarteto Fantstico e outras porcarias afins que j foram praticamente esquecidas por todos- e nem mesmo os possveis defensores de Quarteto 2 seriam capazes de dizer que este ser lembrado daqui a, digamos, 10 anos, seriam?

Dito isso, por que escrever sobre o filme? Pelo puro exerccio intelectual? Parcialmente, sim, mas tambm porque sou um tremendo de um teimoso que acredita que a Crtica exerce o importante papel de oferecer um olhar mais “treinado” para que o espectador mdio possa dar incio ao seu prprio estudo sobre a Arte- e a melhor maneira para fazer isso discutindo uma produo amplamente vista, j que a observao mais eficaz quando, obviamente, o objeto de estudo foi de fato contemplado por ambas as partes. Desta maneira, at mesmo bobagens descartveis como A Casa de Cera, Olga e Quarteto 2 podem acabar desempenhando alguma funo mais importante do que a de simplesmente entupir os bolsos de seus mentalmente preguiosos produtores.

Feitas estas consideraes, uma concesso: embora trate o espectador como um beb de 6 meses de idade que facilmente distrado por cores intensas e altos rudos, Quarteto Fantstico 2 representa uma experincia consideravelmente melhor do que o filme original- o que, na prtica, o mesmo que dizer que “melhor” ser abocanhado por um leo faminto do que por dois. Escrito por Don Payne e Mark Frost e dirigido por Tim Story (o mesmo incompetente do captulo anterior), o longa traz seus quatro heris em meio a uma crise dupla: ao mesmo tempo em que um misterioso Surfista Prateado cruza a Terra deixando um rastro de destruio, o casal Reed Richards (Gruffudd) e Sue Storm (Alba, bela e inexpressiva como de hbito) no consegue sequer concluir uma cerimnia de casamento sem ser interrompido por uma nova ameaa ao planeta ou fotografado pelos paparazzi. Assim, logo Sue demonstra ter dvidas sobre o relacionamento, j que os programas de fofoca e seus prprios poderes a fazem lembrar de como diferente (se eu fosse Richards, romperia o noivado assim que descobrisse que a garota viciada nas verses ianques de TV Fama, Superpop e afins).

Nestes momentos iniciais, o filme at consegue divertir com alguns comentrios (bvios) sobre o culto s celebridades e a mentalidade capitalista que leva Johnny Storm (Evans) a encher seu uniforme com as marcas de patrocinadores (algo que o filme rouba descaradamente de Heris Muito Loucos). Infelizmente, no demora muito at que os roteiristas voltem ao seu campo de especialidade e passem a investir em piadinhas envolvendo arrotos, espinhas invisveis, tropees e outros exemplos tpicos da comdia sem imaginao. Como se no bastasse, o filme assim como o original realmente parece se julgar engraadinho, sem perceber que suas tiradas (e Johnny Storm em especial) so apenas chatssimas (a exceo diz respeito boa participao de Stan Lee). Alm disso, a trilha sonora bvia de John Ottman busca desesperadamente salientar o tom de cada cena, oscilando entre o draminha e acordes engraadinhos de acordo com a exigncia do roteiro.

Sem conseguir transformar seus heris em figuras interessantes, o roteiro falha tambm ao no coloc-los diante de situaes capazes de gerar tenso ou mesmo o menor indcio de ameaa real. Alis, para tentar criar algum tipo de envolvimento do pblico com a ao, o pssimo Tim Story tenta desajeitadamente adicionar algum componente humano seqncia em Londres, quando foca (aparentemente ao acaso) um pai de famlia entre as dezenas de pessoas ameaadas pelo ataque do Surfista como, se assim, passssemos magicamente a nos importar com o destino daquela multido. (Vale dizer, ainda a respeito desta seqncia, que ningum parece se importar com o fato de militares norte-americanos desembarcarem no meio da capital inglesa como se fossem donos do pedao prova definitiva de que Tony Blair ainda era o primeiro-ministro britnico quando o Surfista passou por ali.)

Contando com momentos que beiram o ridculo (em determinado instante, o Surfista usa a prpria barriga como uma espcie de suporte multimdia para contar sua triste histria para Sue, talvez percebendo que a mocinha no seria inteligente o bastante para acompanhar o relato sem ver as figurinhas), Quarteto Fantstico 2 ainda denuncia sua mentalidade de macho adolescente ao mostrar o cientista Reed Richards gabando-se, diante do militar caricatural vivido por Andre Braugher (uma verso adulta do jogador popular da escola), por estar transando com uma mulher gostosa, acabando de transformar Sue em um mero objeto sexual, num trofu a ser exibido na Sala dos Garanhes algo que (queimem seus sutis, feministas!) deixa a moa excitada.

Mas difcil cobrar maturidade de um roteiro que no consegue sequer manter sua historinha simplria sob controle: como, por exemplo, Richards descobre que os planetas visitados pelo Surfista so destrudos oito dias depois? E por que o tal Galactus cruza o universo devorando civilizaes? E por que o Dr. Destino volta a usar sua mscara sem mais nem menos a partir do final do segundo ato? (Resposta: justamente para marcar o incio do terceiro ato!) E se a idia de levar Johnny a combinar vrios poderes interessante, curioso notar que a dupla de roteiristas se esquece de que o Dr. Destino iria absorv-los imediatamente ao ser tocado pelo Tocha, o que transforma toda aquela seqncia num imenso furo da trama.

Porm, talvez a maior decepo do filme seja mesmo o Surfista, que, apesar de impecavelmente criado atravs de timos efeitos digitais, revela-se uma figura desinteressante e sem personalidade que, com a dublagem zenmorphutica de Laurence Fishburne, se transforma num personagem simplesmente montono.

Ou talvez ele tenha apenas ficado embaraado ao descobrir que os animadores aparentemente o construram a partir de um molde do corpo do namorado da Barbie (esqueci o nome do boneco), castrando-o de maneira impiedosa algo que deve ter se tornado ainda mais humilhante para o pobre Surfista ao descobrir que seu inimigo no era ningum menos do que o prprio Homem Elstico.

Hum… talvez o filme tenha um subtexto psicolgico mais sutil do que eu havia imaginado… Esto vendo como a Crtica pode ser um exerccio interessante para qualquer obra?