Confira crtica do filme 300

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300posternacional.jpgConfira abaixo a crtica do filme 300 feita pelo editor do site Cinema em Cena Pablo Villaa:

300

Pablo Villaa (pablo@cinemaemcena.com.br)

Dirigido por Zack Snyder. Com: Gerard Butler, Rodrigo Santoro, Lena Headey, Dominic West, David Wenham, Vincent Regan, Michael Fassbender, Andrew Tiernan.

impossvel olhar para um dos quadros finais de 300, que enfoca o exrcito do Rei Lenidas em um belo plano plong, sem que a iconografia clssica relativa a So Sebastio, preso a um poste e com flechas fincadas no corpo, nos venha mente – e, de certa maneira, esta referncia bvia no deixa de ser ironicamente apropriada, considerando-se o status homoertico que a imagem semi-nua e torturada do santo (considerado pela comunidade gay como seu patrono) atingiu ao longo dos ltimos sculos. E “homoertico” um adjetivo inevitvel ao analisar 300, com seu exrcito de homens de torsos nus e depilados, sungas de couro e capas vermelhas esvoaantes – um visual que, imagino, logo comear a ser explorado por danarinos “exticos” (troque o “x” pelo “r”) e por sexshops em todo o mundo. Alis, se o Village People ainda existisse, sou capaz de apostar que o policial, o operrio, o ndio e o marinheiro logo ganhariam um companheiro espartano (que poderia sinalizar a letra “A” do “Y.M.C.A.”).

Adaptao da graphic novel de Frank Miller, o filme reconta de maneira fantasiosa a clebre Batalha das Termpilas, durante a qual um pequeno exrcito grego (com cerca de 7 mil homens) enfrentou um inimigo numericamente muito superior (as estimativas variam entre 250 mil e alguns milhes de soldados persas comandados pelo Rei Xerxes). Liderados pelo Rei Lenidas de Esparta (e os 300 integrantes de sua guarda pessoal), os gregos conseguiram provocar milhares de baixas no inimigo, atrasando sua invaso em alguns dias e desmoralizando-o por sua dificuldade em derrotar um grupo to reduzido de combatentes – uma histria que deu origem fraca produo Os 300 de Esparta, dirigida por Rudolph Mat e protagonizada por Richard Egan em 1962 (e que inspirou Miller a escrever sua graphic novel).

Porm, enquanto o filme de Mat buscava narrar a batalha de maneira mais realista e fiel aos fatos, esta nova produo tem, como interesse principal, funcionar como uma verdadeira ode virilidade: para 300, ser “homem” significa exercer a fora bruta, ter sede de sangue, rir das adversidade, estabelecer laos de companheirismo com outros machos, meter com fora e em vrias posies (transformando as mulheres em eternas aliadas atravs do seu talento na cama) e, finalmente, exibir um lado sensvel com relao famlia (esposa e filhos). E se a virilidade o tema da produo, seu refro a violncia, que filmada pelo diretor Zack Snyder (do timo Madrugada dos Mortos) e pelo fotgrafo Larry Fong com uma beleza moralmente reprovvel, mas ainda assim inegavelmente contagiante: cada esguicho de sangue vermelho-escuro realado pela freqente cmera lenta e todas as amputaes e decapitaes ganham destaque pela insistncia do diretor em praticamente congelar a tela para que possamos apreciar a fora dos golpes (algo sempre embalado pela tima trilha metal de Tyler Bates).

A beleza dos quadros criados por Snyder (claramente inspirado nas imagens concebidas por Frank Miller) tamanha que vrios deles poderiam perfeitamente ser impressos e pendurados na parede – e, alm do plano plong citado no incio deste texto, confesso ter ficado encantado com a majestosa (e bizarra) “rvore de cadveres”; com a belssima Orculo em uma sensual dana flutuante; com a imagem das dezenas de persas caindo em um despenhadeiro depois de empurrados pelos bravos espartanos; e, finalmente, com o simbolismo elegante do plano em que o jovem Lenidas estende sua lana em direo a um lobo cuja sombra pode ser vista ao fundo, cobrindo-o e indicando a ferocidade de seu mundo interior.

Dito isso, no h absolutamente nada de revolucionrio na realizao de 300, ao contrrio do que vrios imbecis andam propagando por a depois de comprarem esta tese dos publicitrios da Warner. Infelizmente, nos dias de hoje, quando qualquer um pode se apresentar como “crtico de cinema” e publicar seus textos em sites voltados para a “cultura pop” (eufemismo para “qualquer coisa que possa nos render dinheiro“), os estdios tm conseguido cada vez mais transformar estes espaos em verdadeiras extenses de seus departamentos de marketing – e j se foi o tempo em que podamos acreditar na clebre frase de Pauline Kael: “Nas Artes, a nica fonte confivel de informaes o Crtico. O resto publicidade“. Pois o fato que, do ponto de vista tcnico, 300 usa basicamente a mesma tecnologia j utilizada em obras como Casshern, Immortel (ad vitam), Capito Sky e o Mundo de Amanh e, claro, Sin City (tambm de Frank Miller). A diferena que, enquanto estes dois ltimos empregavam os cenrios digitais como homenagem s cinessries do passado e ao noir, respectivamente, este 300 investe em uma estilizao de videoclipe (o que no necessariamente ruim), mergulhando seu universo em tons dessaturados que oscilam entre o cinza e o spia. Fora isso, no entanto, Zack Snyder no consegue alcanar a fluidez visual dos filmes anteriores, j que, provavelmente inibido pelo bluescreen, praticamente se limita a manter sua cmera na altura dos olhos e quase sempre diretamente perpendicular ao, o que o obriga a criar inmeros planos nos quais vemos os personagens em contraluz – o que, apesar de belo, eventualmente pode se tornar montono.

J do ponto de vista histrico, no surpresa alguma que 300 tome tantas liberdades, praticamente ignorando a presena dos exrcitos enviados por outras cidades gregas e, principalmente, os vrios navios de guerra atenienses (sempre com o objetivo de transformar seus 300 personagens-ttulo em heris solitrios). Alm disso, para suavizar a imagem dos espartanos, retratando-os como “defensores da liberdade”, o filme convenientemente deixa de citar o imenso nmero de escravos mantidos em Esparta (o que se torna mais irnico quando constatamos que Lenidas critica a escravido persa) e transforma o rito de passagem do jovem rei em uma inofensiva misso para caar um lobo, quando, na realidade, Lenidas provou seu “amadurecimento” ao matar um escravo. Feitas estas ressalvas (que sempre fao questo de incluir, como j devem saber), o fato que as alteraes introduzidas pelos roteiristas funcionam justamente ao simplificarem a H(h)istria, j que 300 pretende ser um filme de ao, no um pico fiel aos fatos – e a complexidade da poltica grega naquele perodo apenas enfraqueceria o projeto (vide Os 300 de Esparta).

Por outro lado, a subtrama envolvendo a rainha Gorgo fraca e dispensvel, consumindo muito tempo e interrompendo a narrativa sempre que toma conta do filme. Alm disso, o roteiro falha ao no conseguir levar o espectador a se importar com quem quer que seja: acompanhamos a luta dos espartanos, mas no lamentamos sua sorte, o que cria um vazio emocional que no consegue ser compensado pela enxurrada de testosterona promovida por Snyder. Alis, a “macheza” exagerada de Lenidas o transforma em uma figura pouco razovel e comandada por seu orgulho (em certo momento, ele lamenta ter to “poucos” soldados para sacrificar), o que leva o espectador a concluir que grande parte de seus problemas deve-se sua prpria estupidez – e, em determinado instante, ao ouvir uma oferta feita pelo vilo vivido por Rodrigo Santoro (intenso em seus exageros divertidos), admito que pensei: “At que esse Xerxes um camarada razovel“.

Lanado em meio a uma intensa discusso sobre suas conotaes polticas (George Bush seria Xerxes ou Lenidas?), 300 tem uma narrativa rasa demais para justificar tamanha polmica – e duvido que esta questo tenha sequer cruzado a mente dos realizadores. Infinitamente mais preocupante – e pouco discutido – o preconceito claro com que o filme retrata as minorias: todos os seus “heris” so homens jovens e brancos; enquanto isso, negros, pardos, asiticos, deficientes fsicos, mulheres, idosos e homossexuais so vistos como criaturas traioeiras, covardes, cruis ou fracas (Gorgo, que quase foge regra, acaba se entregando ao feio Theron – ah, sim: por que os “feios” tambm so desprezveis). E nem preciso dizer que, no caso dos homossexuais, a ironia torna-se gigantesca quando levamos em considerao a natureza homertica de todo o filme.

Longe de ser uma obra perfeita, 300 moralmente repreensvel e narrativamente frgil. Ainda assim, um filme contagiante cuja beleza plstica chega quase a compensar por todos os seus demais problemas. E quem dera se todas as produes problemticas de Hollywood pudessem ser to bonitas.